sábado, 17 de agosto de 2013

Presidente da Academia Itacoatiarense de Letras e escritor Francisco Calheiros cola grau no curso de direito na capital do estado


Foto: ESCRITOR FRANCISCO CALHEIROS
CONCLUI A CURSO DE DIREITO

Vários escritores brasileiros cursaram a Faculdade de Direito: Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Rubem Braga, Vinícius de Moraes, Tenório Telles, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Max Carphentier e muitos outros..
	
O professor e escritor Francisco Calheiros acaba de concluir o Curso de Direito. Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas, foi ainda aprovado no vestibular na mesma Universidade para os cursos de Filosofia, Pedagogia, Administração e Economia. 

Natural de Itacoatiara, tornou-se em Manaus um famoso professor de Português e de Literatura Brasileira e já publicou três livros: Provável Poesia (1996), Canções de Novembro e algumas preces (2007) e Quadro Negro (2012). O escritor deixa transparecer que o Brasil vai perder um professor e ganhar um advogado. O próximo passo será a OAB e um longo caminho no disputado mercado dos operadores de Direito. “Dedico este momento à minha mãe, aos meus irmãos, à Olívia, aos meus filhos Artur, Pedro, Helena e Thiago”, disse o escritor antes de entrar no carro, chorando, e telefonar para a sua mãe.

A seguir, a biografia do autor:

1. NASCIMENTO E INFÂNCIA

Francisco (Soares) Calheiros nasceu em Itacoatiara, no dia 29 de novembro de 1968.  Filho de Maria de Nazaré Soares Calheiros. Não conheceu pai, que se recusou a assumir a paternidade da criança. Aos dois anos de idade, aproximadamente, foi adotado pelos avós maternos, Pedro Calheiros Ramos (pescador, natural de Maués e radicado em Itacoatiara desde 1955) e Maria Soares Calheiros (funcionária da prefeitura do município). O local de nascimento foi a antiga maternidade, onde atualmente funciona a Secretaria de Produção Rural, na Avenida Parque.

Passou a sua infância, até os cinco anos de idade, no Bairro do Jauari, onde morava com os seus avós na Rua Estrada Stone, onde hoje fica a Casa Rolim. Esse cenário está muito presente em seus poemas, pois vários são os textos em que ele cita O Mercado Central, as Pedras, o Trapiche, a antiga fábrica Martins Melo, o barco de pescadores chamado Cai Nágua, o Mangueirão, a antiga Gethal e a já desativada Carolina, fábrica de compensado que funcionou por muitos anos, e onde o próprio autor trabalhou,  já adolescente, quebrando pedras. Ele mesmo conta que ficava esperando seu avô voltar da pescaria, naquela ribanceira do Jauari, atrás do Posto Policial. No seu poema “Poema da Velha Estrada da minha infância”, escreve: “Que saudade daquela ribanceira/, a que ia esperar o meu avô/, um velho e cansado pescador/, que carregou no remo a vida inteira/, que me deu de comer e de beber/, que me ensinou a amar e a viver”.

Depois desse período, a família mudou-se para o Bairro Araújo Costa, bem em frente ao Mercado Municipal. Ali viveu, segundo já revelou, os melhores momentos da sua vida: a Avenida Guianas Brasileiras (atual Armindo Auzier), o Campo do Brasil, a Cacaia, o Seringal, pois na época ainda não havia o Bairro de Santo Antônio nem os outros que posteriormente foram sendo fundados, principalmente por pessoas provenientes de outros municípios. Seu primeiro colégio foi o Grupo Escolar Dr. Fernando Ellis Ribeiro, tendo sido Maria de Fátima Pantoja e a senhora Aurélia suas primeiras professoras. Estudou no Grupo Escolar Mendonça Furtado, Coronel Cruz, Luísa de Vasconcelos Dias, Colégio Nossa Senhora de Nazaré, e o antigo e Segundo Grau no Colégio Deputado Vital de Mendonça, até o segundo ano do atual Ensino Médio, tendo concluído seus estudos em Manaus. Em Itacoatiara, nas mais diversas séries, foram seus professores Tabajara, Socorro Rolim, Deusalina, Ireide, José Gama Filho, José Raimundo Lopes da Costa, Emanuel Altamor, Lázaro Cantuária, Marielza e tantos outros. Como aluno do Coronel Cruz, no primeiro ano do antigo Segundo Grau, fundou o Jornal “O Estudante”, com alguns colegas de classe. De caráter polêmico, o informativo produzido em máquina de datilografia criou tumulto no meio acadêmico.  Escreveu vários artigos criticando a falta de segurança pública, as péssimas condições de ensino, tendo sido ameaçado, já no fim da Ditadura (1985), de prisão por um delegado de polícia.  Frequentou a unidade do Instituto Estadual do Bem-Estar do Menor (Progente), passando a ser ofice-boy na agência da Caixa Econômica Federal, sendo promovido mais tarde ao posto de estagiário. 

A partir desse período, aumenta no autor o pensamento de esquerda, sendo seus primeiros poemas inspirados em Victor Hugo, Thiago de Mello, Castro Alves e Ferreira Gullar. É também dessa época a conclusão de seu primeiro livro, só publicado dez anos depois, já morando em Manaus.

2. A IDA PARA MANAUS

Para o jovem Francisco, ficar em Itacoatiara era não realizar seu maior sonho: ser médico.  Foi então que em 1986 passou a morar em Manaus, onde concluiu o ensino técnico em contabilidade no tradicional Colégio Sólon de Lucena. A experiência foi traumática. Sem ter onde morar, passou a viver de favor na casa de um tio, cuja esposa tratava o jovem escritor com indiferença, humilhando-o e desrespeitando-o na sua condição de menino pobre vindo do interior. O local em que passou a morar em Manaus foi no Bairro do Céu, atrás da quadra do Colégio Militar de Manaus, na casa de um advogado cedida ao seu tio. Por necessidades materiais, trabalhou como ajudante de pedreiro, limpador de terrenos, lavador de janelas e camelô. Esse último episódio está no seu poema “Diálogo de um interiorano. Esse foi um dos períodos mais sofridos vividos pelo futuro escritor. No Colégio Sólon de Lucena, embora o curso fosse de Contabilidade, somente lhe interessavam as disciplinas de ciências da saúde, pois sua missão era cursar a Faculdade de Medicina. Sem nenhum recurso financeiro e vivendo de “bico”, ia para o colégio a pé, percorrendo os quase dez quilômetros que separam a escola do centro da cidade, nas proximidades onde morava. Pensou várias vezes em desistir, mas a determinação foi mais forte, superou a pobreza e todos os obstáculos que o provocavam a parar e voltar ao interior. Do Bairro do Céu, levado por João Ferreira Monteiro, passou a morar também de “favor”, em um pequeno quarto de madeira, de propriedade de Lisboa Andrade, então funcionário da Embratel, no Bairro do Coroado. Era o ano de 1987, e estava concluindo o hoje Ensino Médio. Influenciado por Thiago de Mello, não se inscreveu no vestibular para Medicina, com grandes possibilidades de ser aprovado. Licenciatura Plena em Letras foi o curso escolhido. Nessa época, passou a trabalhar como datilógrafo em uma livraria da Rua Rui Barbosa, no centro de Manaus. Aprovado no vestibular para o curso de Letras da UA, atual Universidade Federal do Amazonas, iniciou o curso em 1988, graduando-se em 1993. 

3. A CASA DA AQUILINO BARROS

Sua família mudou-se quando ele tinha 11 anos de idade para a Rua Aquilino Barros, nº 1376, no Bairro de Santa Luzia. Ali o poeta viveu até que se mudou para Manaus em 1986. Com a morte de seus avós e pais de criação, Pedro Calheiros, em 1996, e de Maria Soares, em 2003, o escritor comprou a propriedade dos demais herdeiros e está instalando o Centro Cultural Casa de Dona Sinoca, onde há cinco anos realiza um recital de Natal e pretende desenvolver um trabalho social, com biblioteca, palestras, cursos livres, pré-vestibular, artesanato e outras formas de participação da sociedade. A intenção é manter viva a memória de seus avós. Na política partidária, pelo PPS, nas eleições de 1996, disputou uma vaga para vereador na sua cidade natal e, nas eleições de 2006, pelo Partido Verde, uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado, mas não obteve êxito em nenhuma das tentativas. 

4. O MAGISTÉRIO

No 4º período do Curso de Letras, passa a ser professor contratado da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), no Colégio Antenor Sarmento Pessoa. Já formado, é aprovado em concurso público para a mesma secretaria e exerce o magistério em várias escolas da rede pública de ensino, como o Instituto de Educação do Amazonas, Colégio Benjamim Constant, Castelo Branco, Padre Pedro Gisland, Valdomiro Peres Lustosa, Elda Bitton Telles da Rocha. É dessa época, sua participação no sindicalismo, ajudando a coordenar inúmeras greves e a fazer manifestações contra os baixos salários pagos aos profissionais da educação. Também por concurso público, passa a ser professor da Secretaria Municipal de Educação (Semed). Não concordando com os baixos salários sempre pagos aos professores, abandona o magistério público, tendo ainda sido aprovado em concurso para professor do Colégio Militar de Manaus. Trabalhou em várias escolas e faculdades particulares de Manaus. Tornou-se muito conhecido como professor de cursos pré-vestibulares e ministrou aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no antigo Curso Camões, Castro Alves, Objetivo, Padrão. Atualmente, exerce o magistério no Pré-Uni Vestibulares, Curso Equipol, Evolução, além de pertencer ao quadro docente do Centro Educacional Adalberto Valle. É especialista em Metodologia de Ensino Superior e produção de texto, além da metodologia hoje adotada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Já colaborou com vários jornais em Manaus, escrevendo comentários e artigos envolvendo cultura, política e educação. 

5. A FACULDADE DE DIREITO

Insatisfeito com o magistério, ingressa na Faculdade de Direito. Pretende abandonar o magistério, advogar e ser membro do Ministério Público ou seguir a magistratura. No futuro próximo, pretende voltar a residir em  Itacoatiara, pois esse é um dos seus grandes sonhos. Participou de vários CONPOFAIs (concurso de poesia falada realizado pela Airma por ocasião do Fecani, tendo obtido o primeiro lugar, em 1989, com o poema “Homens que aplaudis o meu discurso) Em maio de 2009, com um grupo de intelectuais, entre os quais Frank Chaves (historiador), Auricélia Fernandes (poetisa) Esther Araújo (educadora), ajuda a fundar a Academia Itacoatiarense de Letras, tendo sido eleito seu primeiro presidente. Para o escritor, Itacoatiara vive pelo menos 40 anos de atraso na questão cultural, pois não existe uma política séria que incentive as mais diversas manifestações culturais do município.  

6. A OBRA

Francisco Calheiros já publicou os seguintes livros: Provável Poesia (1996) e Canções de Novembro e algumas preces (2007) e tem ainda inéditos os livros Flores da Rua Aquilino (poesia), João Operário (romance) e Os Filhos de Serpa (romance). É mais conhecido como poeta do que como romancista. A temática de sua poesia é bem variada, mas destacam-se os temas que retratam a sua terra natal, os amigos, a família, a insistente busca pelo amor, a religiosidade, a tristeza, a melancolia, a esperança, o compromisso com o presente e a tentativa de construir o futuro, sem deixar de citar o engajamento social. Sua poesia tem muito de Thiago de Mello, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, seu autor preferido. Costuma dizer que como Manuel Bandeira teve a Rua da União, ele teve a Estrada Stone. Hoje seus poemas são conhecidos em vários estados brasileiros e são lidos em escolas, eventos e faculdades, além de serem citados como referência em várias obras e trabalhos universitários. 

Francisco Calheiros é considerado por muitos como um dos grandes poetas que Itacoatiara já teve. O escritor nunca perde a oportunidade de revelar seu amor por sua cidade natal, pela sua cultura e pela sua gente.
Foto: DISCURSO DE COLAÇÃO DE GRAU DO CURSO DE DIREITO REALIZADO PELO BACHAREL FRANCISCO CALHEIROS, EM SOLENIDADE NO DIA 1º DE AGOSTO DE 2013, NO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO AMAZONAS.

Senhora Diretora Acadêmica da Faculdade Martha Falcão, Professora-Doutora Helena Lima; excelentíssimo senhor prefeito de Manaus e personagem principal do meu terceiro livro, Artur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto; secretária Maria Goreth Garcia do Carmo Ribeiro; senhora coordenadora do curso de direito; nossos paraninfos,   professor André Cheik Bessa e Jorge Veras; professores homenageados, Walmir César Pozzetti e Luís Fabian; nossos familiares; autoridades presentes; minhas senhoras e meus senhores.

Boa-noite!

Neste momento sublime, fazemos inicialmente um agradecimento a  Deus, sem o qual esta cerimônia de colação de grau não estaria acontecendo; sem o qual teríamos ficado pelo meio do caminho e não estaríamos realizando este grande sonho – o título de Bacharel em Direito – e o primeiro passo para o início de uma carreira profissional. O que seria de nós sem a proteção de Deus? Acreditar e ter Fé é uma das necessidades humanas.

Neste momento sublime, faz-se mister agradecer aos nossos professores, sempre incansáveis e dedicados em compartilharem conosco seus conhecimentos, suas experiências, suas verdades; foram eles que nos deram as primeiras informações sobre o que é ser um operador do Direito e qual o papel e a importância do advogado para a sociedade. Particularmente, lembro-me das palavras do Professor-Doutor Walmir César Pozzetti, no primeiro dia de aula, ministrando a disciplina Introdução ao Estudo do Direito (IED), que nos disse que, a partir daquela dia, não seríamos mais as mesmas pessoas. Todos os nossos Mestres têm neste momento o nosso muito obrigado – é o mínimo que podemos fazer – nossa gratidão, respeito e reconhecimento. Levaremos para o resto de nossas vidas o que nos foi ensinado. Seremos eternamente devedores de nos terem ensinado a ver o mundo de outra maneira, e mais do que isso, de nos fazerem, a partir de hoje verdadeiros fiscais da Justiça, da Liberdade, dos direitos humanos, homens e mulheres capazes de ver no Direito os alicerces para uma sociedade mais justa e mais humana: Fábio Monteiro, Luís Fabian, Jorge Veras, Lúcia Viana, André Bessa, Carlos Almeida, Rafael Barbosa, Renata, Marco Evangelista, Artur Pozzetti, Eduardo Villar, Francisca Rita, Aldemiro Dantas, Alberto Bezerra, Bruno Cavalcante, Carlos Coelho,  Manoel Bessa, Fernando Prestes, Ezelaide Viegas, Marcelo Dias, Márcia Medina, Lúcia Viana, especialistas, mestres e doutores que compartilharam conosco seus conhecimentos e experiências no Magistério. Dizem que o professor é a matéria-prima mais barata que existe no mercado. Para nós não, para nós o professor é um ser político, é uma dádiva de Deus, sem o qual a sociedade estaria em constante retrocesso.

Neste momento sublime, quero registrar a ausência de minha irmã (Maria Odete, Professora-Doutora da Universidade Federal de Roraima); do senhor Antônio Carriço, pai da Jaqueline; do senhor Manuel Monteiro Diz, pai do nosso amigo Sandro. Quando começamos a graduação – há cinco anos – eles estavam presentes. Hoje, vivendo ao lado de Deus, tenho certeza, Sandro, de que estão aqui, ao nosso meio, fazendo parte deste momento tão importante em nossas vidas. A todos eles o nosso muito obrigado, nossa eterna gratidão, nosso amor e nossas saudades. 

Neste momento sublime, um agradecimento mais que especial às nossas famílias: cônjuges e filhos, enfim, pessoas que fazem parte de nossas vidas e que souberam entender as nossas ausências, os dias de provas, os longos períodos que deixamos de estar presentes, os passeios que não realizamos, as viagens que deixamos de fazer. Mas foram compreensíveis e estiveram ao nosso lado em todos os momentos. Sem eles teria sido tudo muito mais difícil. Como escreveu Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”. Obrigado! Obrigado! Obrigado!

Neste momento sublime, nossas homenagens ao formando José Artur Pozzetti, um exemplo de pessoa, sempre prestativo, nosso representante de sala, respeitado e querido por todos. Fazia questão de mandar os e-mails com o material dos professores, sempre sorrindo, às vezes reclamando, mas sempre presente. Foram muitos os momentos de tensão: 1ª NPC. 2ª NPC. Provão. Ah, aquele provão. Dizem que vão acabar. Artur Pozzetti, peço que você fique de pé para receber uma salva de palmas como reconhecimento do seu trabalho e da atenção que sempre nos dispensou. O mesmo agradecimento à comissão de formatura. Ah, eles foram incansáveis. Fazemos ou não a formatura? Haverá ou não baile? Quando tudo parecia perdido, eis que entram em cena os alunos Tatiane, Jaqueline, César, Artur, Ana Laura e Sandro, que, contra a vontade de muitos, passaram a ser os responsáveis principais por este momento e, principalmente, pelo baile de gala que estaremos realizando amanhã. Tatiane, Jaqueline, Césa, Ana Laura, Sandro, por favor, fiquem de pé, recebam nossos agradecimentos, nossas homenagens e nossa gratidão. Os líderes sempre foram e sempre serão necessários.

Neste momento sublime, faço questão de lhes apresentar cada um dos personagens principais desta história: Calheiros, Sandro, César, Artur, Ana Laura, Jaqueline, Tatiane, Eduarda, Edisioneia, Lygia, Danilo, Nícolas, Wanderleia, Renata, Fernanda, Camila, Alcileia, Bruno, Renny,  hoje Bacharéis em Direito, alguns já aprovados no Exame da Ordem, portanto, já ostentando o título de advogados. Praticamente nos conhecemos no período do Curso e tenho certeza de que a vida acadêmica continuará na vida familiar, social e profissional. Em verdade vos digo, parodiando Valmir César Pozzetti, que agora sois outras pessoas. Em verdade vos digo que agora tendes o dever de atuar em nome do Direito e da Justiça. Os caminhos a percorrer serão muitos. Alguns no funcionalismo público. Outros como profissionais autônomos que saberão honrar a profissão. Em verdade vos digo que a palavra advogado  deriva da expressão em latim 'ad vocatus' que significa o que foi chamado, que, no Direito romano designava a terceira pessoa que o litigante chamava perante o juízo para falar a seu favor ou defender o seu interesse. Por essa razão a função do advogado tem manto constitucional. Portanto, nossa missão é nobre e árdua, entretanto saberemos exercê-la com louvor, dedicação e profissionalismo. É assim que se constrói uma nova sociedade. É assim que se faz história. De igual forma, nossos agradecimentos à Faculdade Martha Falcão, à Direção Geral, à Coordenação. Muitos foram os erros, mas os acertos foram maiores. Somos gratos a essa Instituição, cujo nome saberemos honrar.
	
Neste momento sublime, sabemos que o povo está nas ruas, que a sociedade brasileira passa por grandes transformações e que o momento é delicado. Tentaram tirar algumas prerrogativas do Ministério Público, a casa que hoje nos abriga. Existe um movimento claro das elites dominantes de enfraquecer o poder do Supremo Tribunal Federal. A proposta de um plebiscito com a clara intenção de mudar o foco dos graves problemas que o País atravessa e com clara ameaça à Constituição. Diante desse quadro, nossas responsabilidades aumentam. Precisamos mais do que nunca colocar em prática os ensinamentos adquiridos em sala de aula. Precisamos reagir! Precisamos denunciar os abusos e lutar para que as instituições deste País sejam cada vez mais consolidadas, pois do contrário, a própria democracia ficará fragilizada.  O Brasil não está mais dormindo, e nós, operadores do Direito, temos o dever de lutar para que o Direito seja cada vez mais a ciência da pacificação e da Justiça Social. Sigamos os ensinamentos de nossos professores: o advogado nunca é o fim, mas sempre o meio. Como agentes jurídicos, jamais prometam resultados. Trabalhem com ética. Construam um nome em cima de ações positivas. O sucesso é sempre consequência e não se satisfaz quando obtido sem esforço.

Neste momento sublime, quero-lhes apresentar nossos paraninfos, André Cheik Bessa e Jorge Veras Filho. O paraninfo é o professor a quem incumbe a última lição e o amigo a quem cabe o primeiro conselho. Assim foi o professor André Bessa. Suas aulas de Direito Empresarial tornaram-se inesquecíveis. Seu esquema didático era uma verdadeira obra-prima. Ensinou-nos de tudo: EIRELI, Sociedade Anônima. Foi grande. Foi o verdadeiro Mestre. Já o professor Jorge Veras foi o nosso grande conselheiro, sempre sorrindo e  paciente. Obrigado! Obrigado! Obrigado! Ainda no campo das homenagens, nossos agradecimentos aos professores Walmir Pozzetti e Luís Fabian. Professores, muito obrigado por tudo. Que Deus ilumine seus ensinamentos, suas famílias, suas ações e seus sonhos.

Precisa-se de loucos. De loucos uns pelos outros. Que em seus surtos de loucura tenham habilidades suficientes para agir como treinadores de um mundo melhor. Que olhem a ética, o respeito às pessoas, e a responsabilidade social não apenas como princípios organizacionais, mas como verdadeiros compromissos com o universo!

Precisa-se de loucos de paixão... Não só pelo trabalho, mas principalmente por gente. Que veja em cada ser humano o reflexo de si mesmo, trabalhando para que velhas competências dêem lugar ao brilho no olhar e a comportamentos humanizados.

Precisa-se de loucos de coragem. Para aplicar a diversidade em suas fileiras de trabalho, promovendo igualdade de condições sem reservas, onde as minorias possam ter seu lugar, em um ambiente de satisfação e crescimento pessoal, independente do tamanho do negócio, segmento ou origem do capital.

Precisa-se de loucos visionários, que, além da prospecção de cenários futuros, possam assegurar um novo amanhã, criando estratégias de negócios que estejam intrinsecamente ligadas à felicidade das pessoas. Primeiro a gente é feliz, depois a gente faz sucesso. Não se pode inverter esta ordem.

Precisa-se de loucos pelo desconhecido. Que caminhem na contramão da história, ouvindo mesmo o que os gurus têm a dizer sobre mobilidades de capitais, tecnologia ou eficiência gerencial e ouvindo mais seus próprios corações.

As organizações precisam urgentemente de loucos, capazes de implantar novos modelos de gestão, essencialmente focados no SER, sem receios de serem chamados de insanos, que saibam que a felicidade consiste em realizar as grandes verdades e não somente em ouvi-la. Ou resgatamos a inocência perdida ou teremos que desistir de vez da condição de HUMANOS. 
 
E, para encerrar este momento sublime, quero agradecer a oportunidade de ser o orador de nossa turma. Homenagear meu irmão Jorge, que, há mais de 25 anos, trouxe-me do interior para tentar a sorte na cidade grande. E cito o Artigo Final do poema “Os Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello. “Fica decretado o uso da palavra Liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante, a Liberdade será algo vivo e transparente, como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem”.

Está escrito em nosso convite de formatura: o Direito não é uma pura teoria, mas uma força viva.

Muito obrigado!

  Vários escritores brasileiros cursaram a Faculdade de Direito: Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Rubem Braga, Vinícius de Moraes, Tenório Telles, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Max Carphentier e muitos outros..

O professor e escritor Francisco Calheiros acaba de concluir o Curso de Direito. Licenciado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas, foi ainda aprovado no vestibular na mesma Universidade para os cursos de Filosofia, Pedagogia, Administração e Economia.

Natural de Itacoatiara, tornou-se em Manaus um famoso professor de Português e de Literatura Brasileira e já publicou três livros: Provável Poesia (1996), Canções de Novembro e algumas preces (2007) e Quadro Negro (2012). O escritor deixa transparecer que o Brasil vai perder um professor e ganhar um advogado. O próximo passo será a OAB e um longo caminho no disputado mercado dos operadores de Direito. “Dedico este momento à minha mãe, aos meus irmãos, à Olívia, aos meus filhos Artur, Pedro, Helena e Thiago”, disse o escritor antes de entrar no carro, chorando, e telefonar para a sua mãe.

A seguir, a biografia do autor:


1. NASCIMENTO E INFÂNCIA

Francisco (Soares) Calheiros nasceu em Itacoatiara, no dia 29 de novembro de 1968. Filho de Maria de Nazaré Soares Calheiros. Não conheceu pai, que se recusou a assumir a paternidade da criança. Aos dois anos de idade, aproximadamente, foi adotado pelos avós maternos, Pedro Calheiros Ramos (pescador, natural de Maués e radicado em Itacoatiara desde 1955) e Maria Soares Calheiros (funcionária da prefeitura do município). O local de nascimento foi a antiga maternidade, onde atualmente funciona a Secretaria de Produção Rural, na Avenida Parque.

Passou a sua infância, até os cinco anos de idade, no Bairro do Jauari, onde morava com os seus avós na Rua Estrada Stone, onde hoje fica a Casa Rolim. Esse cenário está muito presente em seus poemas, pois vários são os textos em que ele cita O Mercado Central, as Pedras, o Trapiche, a antiga fábrica Martins Melo, o barco de pescadores chamado Cai Nágua, o Mangueirão, a antiga Gethal e a já desativada Carolina, fábrica de compensado que funcionou por muitos anos, e onde o próprio autor trabalhou, já adolescente, quebrando pedras. Ele mesmo conta que ficava esperando seu avô voltar da pescaria, naquela ribanceira do Jauari, atrás do Posto Policial. No seu poema “Poema da Velha Estrada da minha infância”, escreve: “Que saudade daquela ribanceira/, a que ia esperar o meu avô/, um velho e cansado pescador/, que carregou no remo a vida inteira/, que me deu de comer e de beber/, que me ensinou a amar e a viver”.

Depois desse período, a família mudou-se para o Bairro Araújo Costa, bem em frente ao Mercado Municipal. Ali viveu, segundo já revelou, os melhores momentos da sua vida: a Avenida Guianas Brasileiras (atual Armindo Auzier), o Campo do Brasil, a Cacaia, o Seringal, pois na época ainda não havia o Bairro de Santo Antônio nem os outros que posteriormente foram sendo fundados, principalmente por pessoas provenientes de outros municípios. Seu primeiro colégio foi o Grupo Escolar Dr. Fernando Ellis Ribeiro, tendo sido Maria de Fátima Pantoja e a senhora Aurélia suas primeiras professoras. Estudou no Grupo Escolar Mendonça Furtado, Coronel Cruz, Luísa de Vasconcelos Dias, Colégio Nossa Senhora de Nazaré, e o antigo e Segundo Grau no Colégio Deputado Vital de Mendonça, até o segundo ano do atual Ensino Médio, tendo concluído seus estudos em Manaus. Em Itacoatiara, nas mais diversas séries, foram seus professores Tabajara, Socorro Rolim, Deusalina, Ireide, José Gama Filho, José Raimundo Lopes da Costa, Emanuel Altamor, Lázaro Cantuária, Marielza e tantos outros. Como aluno do Coronel Cruz, no primeiro ano do antigo Segundo Grau, fundou o Jornal “O Estudante”, com alguns colegas de classe. De caráter polêmico, o informativo produzido em máquina de datilografia criou tumulto no meio acadêmico. Escreveu vários artigos criticando a falta de segurança pública, as péssimas condições de ensino, tendo sido ameaçado, já no fim da Ditadura (1985), de prisão por um delegado de polícia. Frequentou a unidade do Instituto Estadual do Bem-Estar do Menor (Progente), passando a ser ofice-boy na agência da Caixa Econômica Federal, sendo promovido mais tarde ao posto de estagiário.

A partir desse período, aumenta no autor o pensamento de esquerda, sendo seus primeiros poemas inspirados em Victor Hugo, Thiago de Mello, Castro Alves e Ferreira Gullar. É também dessa época a conclusão de seu primeiro livro, só publicado dez anos depois, já morando em Manaus.


2. A IDA PARA MANAUS

Para o jovem Francisco, ficar em Itacoatiara era não realizar seu maior sonho: ser médico. Foi então que em 1986 passou a morar em Manaus, onde concluiu o ensino técnico em contabilidade no tradicional Colégio Sólon de Lucena. A experiência foi traumática. Sem ter onde morar, passou a viver de favor na casa de um tio, cuja esposa tratava o jovem escritor com indiferença, humilhando-o e desrespeitando-o na sua condição de menino pobre vindo do interior. O local em que passou a morar em Manaus foi no Bairro do Céu, atrás da quadra do Colégio Militar de Manaus, na casa de um advogado cedida ao seu tio. Por necessidades materiais, trabalhou como ajudante de pedreiro, limpador de terrenos, lavador de janelas e camelô. Esse último episódio está no seu poema “Diálogo de um interiorano. Esse foi um dos períodos mais sofridos vividos pelo futuro escritor. No Colégio Sólon de Lucena, embora o curso fosse de Contabilidade, somente lhe interessavam as disciplinas de ciências da saúde, pois sua missão era cursar a Faculdade de Medicina. Sem nenhum recurso financeiro e vivendo de “bico”, ia para o colégio a pé, percorrendo os quase dez quilômetros que separam a escola do centro da cidade, nas proximidades onde morava. Pensou várias vezes em desistir, mas a determinação foi mais forte, superou a pobreza e todos os obstáculos que o provocavam a parar e voltar ao interior. Do Bairro do Céu, levado por João Ferreira Monteiro, passou a morar também de “favor”, em um pequeno quarto de madeira, de propriedade de Lisboa Andrade, então funcionário da Embratel, no Bairro do Coroado. Era o ano de 1987, e estava concluindo o hoje Ensino Médio. Influenciado por Thiago de Mello, não se inscreveu no vestibular para Medicina, com grandes possibilidades de ser aprovado. Licenciatura Plena em Letras foi o curso escolhido. Nessa época, passou a trabalhar como datilógrafo em uma livraria da Rua Rui Barbosa, no centro de Manaus. Aprovado no vestibular para o curso de Letras da UA, atual Universidade Federal do Amazonas, iniciou o curso em 1988, graduando-se em 1993.


3. A CASA DA AQUILINO BARROS

Sua família mudou-se quando ele tinha 11 anos de idade para a Rua Aquilino Barros, nº 1376, no Bairro de Santa Luzia. Ali o poeta viveu até que se mudou para Manaus em 1986. Com a morte de seus avós e pais de criação, Pedro Calheiros, em 1996, e de Maria Soares, em 2003, o escritor comprou a propriedade dos demais herdeiros e está instalando o Centro Cultural Casa de Dona Sinoca, onde há cinco anos realiza um recital de Natal e pretende desenvolver um trabalho social, com biblioteca, palestras, cursos livres, pré-vestibular, artesanato e outras formas de participação da sociedade. A intenção é manter viva a memória de seus avós. Na política partidária, pelo PPS, nas eleições de 1996, disputou uma vaga para vereador na sua cidade natal e, nas eleições de 2006, pelo Partido Verde, uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado, mas não obteve êxito em nenhuma das tentativas.


4. O MAGISTÉRIO

No 4º período do Curso de Letras, passa a ser professor contratado da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), no Colégio Antenor Sarmento Pessoa. Já formado, é aprovado em concurso público para a mesma secretaria e exerce o magistério em várias escolas da rede pública de ensino, como o Instituto de Educação do Amazonas, Colégio Benjamim Constant, Castelo Branco, Padre Pedro Gisland, Valdomiro Peres Lustosa, Elda Bitton Telles da Rocha. É dessa época, sua participação no sindicalismo, ajudando a coordenar inúmeras greves e a fazer manifestações contra os baixos salários pagos aos profissionais da educação. Também por concurso público, passa a ser professor da Secretaria Municipal de Educação (Semed). Não concordando com os baixos salários sempre pagos aos professores, abandona o magistério público, tendo ainda sido aprovado em concurso para professor do Colégio Militar de Manaus. Trabalhou em várias escolas e faculdades particulares de Manaus. Tornou-se muito conhecido como professor de cursos pré-vestibulares e ministrou aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no antigo Curso Camões, Castro Alves, Objetivo, Padrão. Atualmente, exerce o magistério no Pré-Uni Vestibulares, Curso Equipol, Evolução, além de pertencer ao quadro docente do Centro Educacional Adalberto Valle. É especialista em Metodologia de Ensino Superior e produção de texto, além da metodologia hoje adotada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Já colaborou com vários jornais em Manaus, escrevendo comentários e artigos envolvendo cultura, política e educação.


5. A FACULDADE DE DIREITO

Insatisfeito com o magistério, ingressa na Faculdade de Direito. Pretende abandonar o magistério, advogar e ser membro do Ministério Público ou seguir a magistratura. No futuro próximo, pretende voltar a residir em Itacoatiara, pois esse é um dos seus grandes sonhos. Participou de vários CONPOFAIs (concurso de poesia falada realizado pela Airma por ocasião do Fecani, tendo obtido o primeiro lugar, em 1989, com o poema “Homens que aplaudis o meu discurso) Em maio de 2009, com um grupo de intelectuais, entre os quais Frank Chaves (historiador), Auricélia Fernandes (poetisa) Esther Araújo (educadora), ajuda a fundar a Academia Itacoatiarense de Letras, tendo sido eleito seu primeiro presidente. Para o escritor, Itacoatiara vive pelo menos 40 anos de atraso na questão cultural, pois não existe uma política séria que incentive as mais diversas manifestações culturais do município.


6. A OBRA

Francisco Calheiros já publicou os seguintes livros: Provável Poesia (1996) e Canções de Novembro e algumas preces (2007) e tem ainda inéditos os livros Flores da Rua Aquilino (poesia), João Operário (romance) e Os Filhos de Serpa (romance). É mais conhecido como poeta do que como romancista. A temática de sua poesia é bem variada, mas destacam-se os temas que retratam a sua terra natal, os amigos, a família, a insistente busca pelo amor, a religiosidade, a tristeza, a melancolia, a esperança, o compromisso com o presente e a tentativa de construir o futuro, sem deixar de citar o engajamento social. Sua poesia tem muito de Thiago de Mello, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, seu autor preferido. Costuma dizer que como Manuel Bandeira teve a Rua da União, ele teve a Estrada Stone. Hoje seus poemas são conhecidos em vários estados brasileiros e são lidos em escolas, eventos e faculdades, além de serem citados como referência em várias obras e trabalhos universitários.

Francisco Calheiros é considerado por muitos como um dos grandes poetas que Itacoatiara já teve. O escritor nunca perde a oportunidade de revelar seu amor por sua cidade natal, pela sua cultura e pela sua gente.
 

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